O DIA DAS CRIANÇAS NO BODOCÃO, EM BALDIM.

O DIA DAS CRIANÇAS NO BODOCÃO, EM BALDIM.
ROGERIO DO BODOCÃO FAZ FESTA PARA AS CRIANÇAS DE BALDIM, COM BOLO, PRESENTES E MUITAS BRINCADEIRAS.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

GILMAR CASTILHO - ELEIÇÕES EM BALDIM


Baldim
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ELEIÇÕES EM BALDIM, SOB UM PRISMA TEATRAL
Aproveitando que estou pensando em retornar ao mundo do teatro como escritor de peças do dia a dia urbano, farei um pequeno ensaio do que um singelo e frágil município do extremo norte da Região Metropolitana de BH passou nos últimos meses. Para ficar mais fácil o entendimento, estou dividindo esta peça em atos. Apesar de todos os meus esforços, não consegui definir qual o gênero teatral em que mais se enquadra o acontecido: talvez seja um drama ou um policial, com momentos de comédia salpicados de humor negro, ou mesmo uma ópera. Mas a retidão dos padrões da moral universal foi ditada pelo povo e o bem prevaleceu ao final. Para o futuro esta narrativa servirá de testemunho para os historiadores. Então, vejamos como seria o roteiro dessa peça:

Afonso Starling, 1º Prefeito de Baldim
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PRÓLOGO: Cenário do interior
Por um longo período, cuja duração perdura por cerca de 63 anos – desde a emancipação política do município em 1949 -, Baldim insistia na alternância impiedosa de duas correntes políticas conservadoras. De um lado, a antiga UDN deu lugar à ARENA dos militares, ao PDS da pós-ditadura militar, PFL da virada do século, culminando no DEMOCRATAS da atualidade. Alguns partidos coadjuvantes participaram do apoio a esse grupo. Do outro lado, formando fileiras de resistência, o antigo PSD do início da vida política de Baldim se transformara no MDB, oposição “moderada” e quase imperceptível ao militares da ditadura de 1964, origem do atual PMDB. De ambas as partes, bons e maus políticos estiveram no comando do executivo, ditando os rumos de Baldim. Não há como esconder que, a cada mandato, mais ranços políticos e pessoais surgiram nos meandros da vida pública baldinense, em que quase todos lutaram em busca de interesses pessoais e de grupos, relegando a população a um segundo plano. Ninguém tinha forças para reagir e fazer surgir uma terceira via que quebrasse a hegemonia das duas forças conservadoras.


Figura ilustrativa
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PRIMEIRO ATO: Duelo de gigantes
O ano de 2012 chega com uma grande expectativa para a população em relação à briga política que estava ainda no rascunho, mas que já prenunciava um grande confronto entre as forças conservadoras do município. Desta vez, havia um novo ingrediente que prometia colocar mais fogo na fogueira: a Lei da Ficha Limpa era uma ameaça a um dos lados, mais precisamente a do político que iria tentar a reeleição. Mas com a habilidade do grupo de advogados contratados pelo atual prefeito, as filigranas jurídicas foram indicando que a Justiça Eleitoral nada poderia fazer e, dessa forma, ficou institucionalizada a candidatura do nome mais forte do PMDB, com o apoio de outros partidos, gerando o que, no futuro passou a ser conhecido popularmente apenas pelo numeral 15. Outro nome forte foi indicado pela oposição, o líder do DEMOCRATAS - prefeito por 5 mandatos - e se aliou a um grupo representado por um político que estava em ascensão há dois pleitos eleitorais, compondo ainda com mais outros partidos menores. Assim, era constituída a coligação que o povo passou a chamar de 25. Estavam montados os principais gladiadores da contenda de 7 de outubro: 15 x 25.

SEGUNDO ATO: Guerra 
Assim, como o juiz apita o início de uma partida de futebol, o mês de julho começou com os combatentes se estudando para uma ofensiva maior. Armados de santinhos, faixas, foguetes e jingles, os grandes competidores começaram a mostrar as “manguinhas” e partiram para o ataque. A bebida alcoólica era o combustível daquele pessoal. Meia centena de rapazes e moças de um lado, mais outro tanto de pessoas de outro encarnaram os espíritos dos mais ferrenhos guerreiros da história e partiram para os campos de guerra. O 15 com camisas vermelhas e um coração no peito era o mensageiro de que derramariam sangue, mas não iriam temer qualquer adversário. Já o 25, nas cores azul e verde, representando as árvores estilizadas que simbolizam o partido, não deixavam por menos. Os interesses da população foram deixados de lado e apenas interessava humilhar o lado contrário e tomar o campo de guerra ocupado pelos desafetos. Os veículos de som não paravam de circular com intrépidos decibéis que feriam os ouvidos das pessoas de bem. O terror se espalhou entre os moradores do município e a cada grito de guerra proferido pelos grupos, a cada foguete estourado e a cada carro de som que passava eram motivos para que os mais prudentes se afastassem e até preces foram feitas no sentido de aplacar a ira daqueles guerreiros do 15 e do 25.

TERCEIRO ATO: A Batalha Final
Foram dois meses e meio de combates políticos tendo como palco São Vicente, Vila Amanda e Vargem Grande, além dos diversos povoados e comunidades do município. Houve momentos em que se temia pelo pior com a possibilidade de vítimas fatais, pois eram pedradas, garrafadas, foguetes e muita pancadaria.
E o povo? Sempre desrespeitado pelas duas turmas, que davam inveja às torcidas Galoucura e Máfia Azul, do Atlético e do Cruzeiro, respectivamente. E o pior, duas mulheres eram as líderes dos grupos, incitando a violência entre eles. O palco estava armado para a batalha final: na Praça Emílio de Vasconcelos, no Centro de Baldim, aconteceria o grande embate, bem às vésperas das eleições. Entrincheirados, o 15 na Pastelaria do Ivan e o 25 no Bar do Toninho, com pouco mais de 10 metros de asfalto separando os “pelotões”, as provocações começaram no início da tarde. O povo previa: “vai acabar com morte”. Depois de muita cerveja e insultos, os vermelhos e brancos se engalfinharam com os azuis e verdes. Novamente, pedradas, garrafadas, foguetes para todos os lados, mastros de bandeiras, socos, rabos de arraia e todo o tipo de baixaria. O comércio da região central fechou as portas, as mães recolheram seus filhos e se resguardaram em suas residências.Meia hora de pancadaria e a Polícia Militar chega ao local, com a viatura descendo pela contramão com a sirene ligada, em uma ação cinematográfica. Policiais surgem armados com escopetas, revólveres e spray de pimenta. Correria para todos os lados. Alguns militantes do 15 e do 25, bastante embriagados enfrentavam a polícia. Resultado: prisões, incluindo a do chefe do executivo baldinense, com direito a algemas, chutes, socos e cassetetadas.  





EPÍLOGO: O Julgamento popular
Apesar da disputa sempre ficar praticamente restrita aos dois figurões representados pelo 15 e pelo 25, dois outros competidores estavam no páreo, um representante do PT (13) e outro do PPS (23). Alheios ao que estava ocorrendo com os grandes, o 13 e o 23 procuravam fazer uma campanha mais acanhada em termos de investimentos financeiros.
Seguindo a velha máxima de que mineiro gosta de “um dedo de prosa ao pé do ouvido”, o candidato do 13 mostrava que era um representante do povo, assim como os companheiros Lula e Dilma, e às vezes de chinelo de borracha, passou a visitar os eleitores em suas residências. Não tinha foguetório e muito menos Fundo de Quintal em suas andanças, mas tinha a humildade e a serenidade de expor a todos, sem preconceitos e sem vícios políticos, a sua plataforma de governo. E mais: passou a convocar o povo a participar diretamente nas decisões sobre quais seriam os rumos e obras a serem executadas pela Prefeitura de Baldim, caso fosse eleito.
Chegou o dia 7 de outubro. Apesar de o povo temer que ainda houvesse mais violência em confrontos entre os grandes, o pleito eleitoral decorreu com tranquilidade. Em menos de uma hora após o fechamento das urnas, surge o veredito do povo: venceu a humildade e o respeito às pessoas. Estava eleito Zito, o “cavaleiro” andante que leva em sua bagagem a dignidade e responsabilidade de quem sabe o que quer. Havia chegado a hora de o Partido dos Trabalhadores assumir a posição de comando do município de Baldim para os próximos quatro anos. Quebrou-se a hegemonia de mais de seis décadas. (Gilmar Castilho em 10/10/2012)





Zito, Prefeito eleito, na carreata da vitória
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COMENTÁRIOS
Ione Torres 17/10/2012 00:45:00
Gilmar Castilho, obrigada por amenizar a narrativa de um fato real, tão lamentável, ocorrido na Praça Central de nossa cidade. O que seria uma página negra na história política da nossa terra, ser transformada em uma página literária, deve-se ao seu talento de contar histórias. Já que estamos aqui pra contar a história da nossa terra e da nossa gente e nem tudo é tão doce como gostaríamos que fosse, este fato não poderia mesmo ser omitido sem comentários. Portanto, esperamos que esta peça, apesar de todo o seu talento de escritor, nunca seja encenada, mas certamente ela servirá de lição para todos que participaram destas cenas lamentáveis. Aos que assistiram a encenação real desta peça, também vão guardar a lembrança destas imagens, uma lição viva do que não é politicamente correto de ser feito.Ione, editora do Blog
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