FEIRA DE ARTESANATO, EM BALDIM.

FEIRA DE ARTESANATO, EM BALDIM.

sábado, 27 de março de 2010

CRONICAS DA NEIVA FERREIRA



Maio - Coroação de Nossa Senhora
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FRAGMENTOS DE MAIO
Da minha infância, as lembranças guardadas do mês de maio não é do frio com ventos cortantes ou das manhãs graciosas, orvalhadas e brancas da geada da madrugada. Nem quando me vestia de anjinho para a coroação de Nossa Senhora, na Igreja de São Bernardo, junto das amiguinhas.O              tempo que marcou e ficou gravado na minha memória era a rotina da minha mãe, durante a semana que antecipava o primeiro de maio e o próprio dia...Tudo começava com o sorteio dos "juízes" para cada dia daquele mês, e o Padre Raimundo, conhecedor das habilidosas mãos da minha mãe para o forno e o fogão, "sorteava-a" sempre como a leiloeira ( juíza ) do primeiro dia. E minha mãe nem esperava ser avisada do compromisso, ela já havia assimilado para se, a incumbência de começar a festa de maio. Não podia fazer feio! Aí, nessa semana, era agitação geral em casa, o fogão de lenha não tinha descanso, as chamas sempre acesas para fazer o melhor doce de figo verdinho, da laranja-da-terra, do mamão em pedaços com o desenho de uma estrelinha, doce de leite bem batido e as amêndoas branquinhas para os cartuchos dos anjinhos... Essas eram feitas de amendoim torrado, caramelados em calda de açúcar na peneira sobre as chamas do fogão de lenha; depois eram empacotadas num saquinho em forma de um cone, todo enfeitado de papel-de-seda colorido e encaracolado. Tudo era feito com muito carinho e dedicação, nada podia desandar! Um dia antes da quermesse, ela levantava cedinho, jogava a lenha no forno e ajeitava até virar um braseiro. O forno, "feito por Bené" (de tão bom, o Bené deixou sua marca nele), ardia em chamas....era a vez das quitandas: caçarola italiana, pão-de-ló, fatias e bolos bem enfeitados e recheados, cubú enrolados na  folha de bananeira, deliciosos biscoitos quebra-quebra e os de polvilho, enormes... Lembro-me que ia até a noite a sua lida no forno e eu ficava ali a espreitá-la, além dos biscoitos, é claro! A minha admiração pelo que ela fazia se estendia até o nosso céu super estrelado daquelas noites de outono. Mas, o dia primeiro de maio, ah meu Deus!, quanta correria... seriam os preparativos da “Ceia”, a mais disputada e valiosa do leilão. Bem de madrugadinha, ao som dos sinos, dos fogos de artifícios e da Banda - apelidada de “a furiosa do Sô João de Afonso” - a alvorada começava partindo da igreja e marcando a hora dela recomeçar e preparar a prenda mais cobiçada do leilão. Ela ia lá no quintal, escolhia o melhor frango e matava o coitadinho numa habilidosa esperteza, assava, recheiava e, depois, o enfeitava todo com rodelas  de ovos cozidos e azeitonas em espetinhos coloridos. O arroz era "à grega", a farofa feita com os miúdos do frango, tutu a mineira acompanhado de lingüiça, ovos e couve, a batata sautê bem amanteigada e, para fechar com chave de ouro, um champanhe Cidra Cereser. O cheiro da nossa cozinha daqueles dias, transbordava ainda mais, por toda a vizinhança que ficava assuntando o local. Sábia, ela pegava na cristaleira as suas melhores compoteiras, travessas e bandejas para tornar as iguarias do seu leilão mais bonitas e atraentes. Antes de enchê-las cuidadosamente, anotava num pedaço de esparadrapo o seu nome e colava no fundo delas, o que traduzia para o bom entendedor: “é pra devolver”; senão, nós, a criançada, íamos de casa em casa, recolhendo o vasilhame, seguindo uma lista feita na noite do leilão. Lembro-me que eram tantas iguarias para carregar que mamãe convocava a parentada para ajudar, naquele momento, da chegada hora, e, quando saíamos com as mãos cheias de leilões diversos, era visível no seu rosto um misto de ansiedade, realização e orgulho... iria expor suas obras de arte feitas de guloseimas na frente da igreja, para admiração e desejo de todos. O tio Antônio e o tio Alberto ficavam encarregados das frutas, colhidas na nossa "Vargem". Eles faziam uns grandes e surpreendentes molhos de cana-caiana, pencas de mexericas e laranjas que eram as últimas a serem arrematadas. O arrematante das frutas, geralmente, as distribuía para a criançada disputar numa algazarra danada, causando muitas risadas em todos os presentes, e assim, se encerrava, aos vivas e salvas de palmas do Pe. Raimundo e seus discípulos, aos sons dos sinos, dos fogos de artifícios e da banda, aquele dia dos meus sonhos, sonhados agora... Hoje em dia, quando estou no quintal da minha casa em Baldim, ao lado do forno da minha mãe, olho para o céu estrelado e recordo daquele tempo de tanta entrega, singeleza e crença; então, concluo: era tudo lindo demais para ser para sempre...Dedico estes fragmentos nostálgicos à memoria da minha querida e dedicada mãe, Nelita, e a todas as mães que fizeram e fazem do mês de maio uma festa de contentamentos, pureza e sonhos de infância mais belos...
 (Neiva Stelita Ferreira, filha do Sr. João de Afonso Ferreira)



Festa de Agosto - Baldim
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 O MÊS DE AGOSTO
Quantos segundos você leva para atravessar o tempo e voltar aos seus 8, 9 ou 10 anos? Poucos...
Se lembra daquela festa na qual não pensava há anos e percebe que essa é a lembrança mais divertida e mais feliz da sua infância? É, o tempo voa... A sensibilidade infantil armazena com muita abundância os momentos vividos naquela época de  inocência e delicadeza e, comigo, não foi diferente. Há cheiros, cores e sons, absolutamente inesquecíveis para mim. Basta uma mínima lembrança para que tudo, tudo mesmo, volte àqueles dias: a ventania de agosto carregada de poeira, o ar rarefeito dos dias ensolarados, o comportamento das pessoas numa inquietude satisfeita, um clima suspenso do cotidiano simples, a felicidade tímida ansiada nos rostos: tudo isso se notava como  o prenúncio do jubileu de São Bernardo em Baldim. Lembro-me que havia um envolvimento contagiante de arrumação, de inúmeros preparativos de todos os moradores naqueles dias: as costureiras apavoradas com tantas encomendas de roupa nova; as casas ganhavam novas pinturas, os meios-fios dos passeios também eram pintados e ficavam branquinhos... a chegada e a montagem do Circo, que sempre vinha para a "festa de agosto", nos enchia de expectativa e emoção; a construção das barraquinhas feitas de bambús e lonas de caminhão, dos camelôs com suas bugigangas coloridas e diversas; as vendas, lojas e bares  encomendavam novidades para os fregueses e visitantes; os parentes de longe avisavam da suas chegada. Naqueles dias, tudo ia se transformando e movimentando a nossa pacata cidade.
Os mercadores provenientes dos arredores traziam suas produções para vender e, depois, fazerem as suas compras, preparando-se para a festa. Os "viajantes" da Capital (era como chamavam os vendedores ambulantes) hospedavam-se no Hotel REX e vinham com as novidades mais requintadas. O movimento nas estradas era grande, com os ônibus sempre lotados. Dessa permuta de interesses vantajosos, muitos negócios foram feitos, apesar da nossa pequena e humilde economia.
Nas casas, era aquela fartura, aromas de assados e adocicados se espalhavam, saindo dos fornos e fogões ardendo em chamas. Eram os preparativos dos leitões, dos frangos, das quitandas e dos doces variados; tudo para agradar as visitas que, certamente, viriam prestigiar a celebração do nosso padroeiro. O cheiro da faxina, do assoalho bem encerado cujo brilho era dado a mão, com um escovão de ferro e cabo alto, pesado como chumbo,  e era só a gente chegar e ouvir: “cuidado, não pisa, vai cair, a cera 'tá molhada.”Os vasos de plantas iam sendo colocados, estrategicamente, nos alpendres e nos cantos da casa, enfeitando com singeleza todas as salas e cômodos, com as latas enrolados em papéis coloridos dando um toque de delicadeza às samambaias, begôneas, avencas, cabelos-de-negro, tinhorões, dinheiro-em-penca; aí, a casa ganhava brilho e um aroma de mato...Que cheiro de limpeza,de gente boa e honesta... que cheiro de gente direita e feliz! Os sons públicos vinham do alto-falante do bar do Zequinha, empolgando a todos e anunciando as novidades para a festa. Em seguida, ele colava uma música “dedicadas aos caros ouvintes”, e, até hoje, lembro-me de uma assim: “Sabiá na gaiola fez um buraquinho, voou... voou...voou... E a menina que gostava tanto do bichinho, chorou, chorou, chorou...”. Na minha criancice, eu imaginava todo o enredo da música, que deixava meu coração doendo de dó da pobre menina. Na igreja, no final de tarde, o Padre Raimundo colocava alguns dobrados e havia uma música que me deixava intrigada: um cantor com a voz melancólica cantava: “... fim da tarde, cai o véu da noite e a cidade aos poucos vai ficar sem ti...”. Aquela canção me entristecia um pouco,porém, hoje, acho engraçada a lembrança. Na “casa de baixo” (assim chamávamos a casa onde nascemos), meu pai – João Afonso - e sua trupe musical ensaiavam para tocarem durante todos os dias da festa. Ouvia as vozes e notas se entrecortando para os acertos. A preocupação era geral, pois precisavam estar bem preparados para os cortejos da festa. Sendo a única atração na cidade, o movimento envolta da velha casa era grande, e juntava muita gente para assistir o ensaio da banda. Enfim, acertadas as notas e o dobrado, o som dos metais, a plenos pulmões, cortava o silêncio daquelas noites baldinenses.Outros ensaios aconteciam numa sincronia de sons. Na rua do Campo e na rua da Olaria, os catopês e as marujadas tocavam seus tambores, ouviam-se as suas vozes duetando e imitando um grunhido fino e longo. Os toques e vozes chegavam meio abafados, distantes, e tudo isso era instigante e belo ao mesmo tempo. Ah, meu Deus! quantas vezes, eu e outras crianças, depois de muitas brincadeiras na rua, íamos dormir embalados por aqueles sons genuínos e característicos daquela época...Os festeiros, que eram denominados reis, rainhas, princesas, príncipes, imperatrizes e damas, preparavam suas vestimentas típicas, feitas de tecidos brocados e de veludos, com longas capas se arrastando pelo chão, todas ornamentadas com muitas cores e brilhos. Apesar do sol abrasador e de muita poeira, o requinte e a elegância não eram dispensados. Os Catopês e as marujadas enfeitavam-se de fitas coloridas, espelhos, chocalhos feitos com tampinhas de garrafa, que colocavam sobre os pés, com suas roupas feitas de cetim. A Banda tinha os uniformes impecáveis, pareciam com o soldadinho de chumbo, só que nas cores azul e branca, ou o uniforme todo branco, que seria o de gala. Como, após a missa, o cortejo seguiria para o almoço, oferecido pelos festeiros que faziam  taxadas de comidas e de doces, que seriam servidos aos convidados componentes da banda, dos catopês, das marujadas e demais convidados. Quanta fartura, quanta abundância de aromas e sabores tão distintos! E pensar que tudo se arranjava e se transformava para um mesmo fim: a “festa de agosto...”A minha consciência daquele tempo tão contingente, de tanta luta, de tanta criatividade, torna esse testemunho essencial agora. É de quem esteve por perto, vivenciando toda aquela metamorfose cultural. Com um certo orgulho, hoje passo a olhar o mundo com a superioridade de quem tem um tesouro guardado dentro do peito, como um quadro de Dalí ou um filme de Fellini... o retrato inusitado de seres humanos poéticos, instigantes e admiráveis.!VIVA NOSSA TRADIÇÃO! VIVA A FESTA DE AGOSTO!( Neiva Stelita Ferreira, filha de João Afonso)



SAUDADES DA INFANCIA EM BALDIM

Sempre tive orgulho de dizer que a cidade de Baldim, fez parte de minha infância. Lembro dos dias que iamos, familia reunida, tios, primos , pais, irmãos e principalmente os avós. Eram dias de alegria, carros cheios, expectativa de chegar logo, passavamos o dia todo de casa em casa visitando e a criançada amava, comida é o que nunca faltava, toda casa que iamos eramos recebidos com festa, mesa sempre farta, quintal para brincar, correr, ficar livre, sujar sem medo de levar bronca. E sem falar, principalmente dos pés de manga, hummm que saudade.....Nos lambuzavamos. Hoje o dia, as semanas correm e meu maior sonho é poder levar meus filhos, (bisnetos do Latacho) para conhecerem um lugar onde vivi intensamente minha infância. Desejo à todos muita paz e saúde e que as crianças de hoje, desta cidade tão acolhedora possam usufruir de todas as oportunidades que tivemos e que esta cidade traz. Como meu querido primo Gustavo disse:  Parabenizo pelo grande trabalho em divulgação, relatos e homenagem aos baldinenses , e que Deus continue iluminando todas as mentes dos dirigentes desta cidade chamada BALDIM.
    Erika Marise de Oliveira Quites, neta de Latacho.



Igreja de santo Antonio, Baldim
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MINHA INFANCIA EM BALDIM
Era uma vez... Passei toda a minha infância em Baldim. Estudei no Grupo Escolar "São Bernardo", de onde guardo as melhores lembranças dos tempos de escola. Foi lá, onde fiz as primeiras amizades que guardo até hoje num canto especial do meu coração. As minhas primeiras professoras foram Neide Reis e Maria Eufrasia, essa, um dia, chegou na "Classe e nos disse: "vou-me embora para Belo Horizonte estudar mais e buscar uma nova profissão, ficamos tristonhos e sem entender bem sobre o seu sonho... Mas, tudo passava e o primeiro provérbio que aprendi foi com D.Neide (bem na hora da prova), ela dizia: "é tempo de murici, cada um cuida de si ", aí, nem pensar em consultar o colega do lado. Outra era, nem pensar em "aprontar" e ter que ir ao gabinete falar com D.Wani, por quem guardávamos respeito profundo. Havia um ritual agradável para a criançada que eram as aulas de leitura debaixo de uma imensa árvore (um pé de jaca) que ficava no fundo do Grupo. Sentávamos no chão e nos deliciávamos com as estórias... Quando o assunto era Ciências, ah! aí vinham as excursões no Córrego do Firmino ou na Bica do Chiquito de Bruno, só pra ver como os sapinhos chegavam ao mundo, era excitante o nosso dia. Pra saber das aves, nada melhor do que uma galinha, que depois de destrinchada em plena sala de aula, a saudosa Dina fazia uma deliciosa farofa com a dita cuja, prá comemorar os sabios ensinamentos adquiridos da nossa sábia e dedicada professora . Tudo era fascinante e alegre. Nos estudos de Botânica, íamos mais longe: era um "pic-nic" de caminhão, pra fazenda do Sô Ademar ou em Contagem. Meu Deus, quanta experiência, com muita diversão! Recebíamos o conhecimento, na prática, sobre os diversos tipos de plantas, folhas, caules, flores e etc. Nada de televisão ou Internet. Tudo era repassado ao vivo e a cores para o nosso conhecimento. E como aprendíamos!..Ah! Nada era mais prazeroso do que comemorar as datas importantes, o dia das Mães, a Páscoa, a Primeira Comunhão, o dia da Arvore, o dia do Professor, com teatro, poesias, música, bolo e até um trono, feito de caixotes, onde o professor subia para receber nossas singelas homenagens, sem falar das datas cívicas, sempre lembradas e ressaltadas nas Aulas de Educação Moral e Cívica. As comemorações das datas cívicas eram acontecimentos importantes e da qual toda a sociedade baldinense participava com desfile de carros alegóricos, de todas as turmas de estudantes, discursos da Diretora, do Prefeito e demais autoridades. Um grande evento que movimentva a pacata Baldim e que todos davam um valor especial.  A escola tinha uma importância e um valor absurdos em nossas vidas. Éramos amigos da escola, sinceramente. O prazer de estudar era tão grande que queríamos permanecer mais tempo no Grupo do que em nossas casas ou até mesmo na rua. E pensar que nem sonhavam, naquela época, com a Escola Integral! Doces lembranças... Homenageio saudosamente, a Dina do Grupo, que nos preparava com muito carinho e alegria a merenda da cantina, o Sô Zé do Grupo,  que era o nosso querido e bondoso disciplinário, a quem respeitávamos como se fosse um pai, a Manela do Zé Miloteiro, falante e alegre, a todas pessoas que interagiram e contribuiram com essa linda fase que é a infância. Velhos e bons tempos aqueles... (Neiva Ferreira, filha de João de Afonso)

FORASTEIROS
Outro fato marcante daqueles tempos foi quando, um certo dia, desceram do ônibus, em frente ao Bar do Domingos Barbosa, dois "forasteiros", made in USA: Joe Rott e Terry Smith, vulgo, Terezinha Americana. Algo inusitado, diferente, para a criançada. Eles nos ensinaram noções de higiene, plantio de horta, criação de animais, eco turismo a cavalo, às margem do Rio das Velhas, foi  quando começamos a apreciar e respeitar a Natureza. Um mundo novo se abria para nós, a convivência diária com pessoas tão estranhas, com uma fala diferente e que nos fascinavam ao mesmo tempo. É que nunca haviámos tido contato com estrangeiros tão distantes, outra língua, outros costumes... A Lia Machado era a tradutora, de tão graciosa, acabou fisgando o boy. Estávamos fazendo intercambio sem nunca ter ouvido falar disso. E foi uma das primeiras palavras que aprenderíamos do Ingles. (Neiva Ferreira, filha de João de Afonso

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