FEIRA DE ARTESANATO, EM BALDIM.

FEIRA DE ARTESANATO, EM BALDIM.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A HISTÓRIA DO SOLDADO


 Entrada de São Vicente
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PROFESSOR ERNANE DUARTE NUNES




É com prazer que lhe envio uma longa história que fez parte da minha infância e de meus irmãos, uma tradição oral que ouvi meu pai contar, com toda a simplicidade da sua linguagem, e de que vou recordar, procurando contá-la do jeito que ouvi e de que me lembro. Pode ser que você ou pessoas como o meu padrinho Domingos Barbosa (que era primo de minha saudosa mãe Raimunda) a conheçam. Ela é um pouco grande e meu pai costumava contá-la por partes, despertando em nós a curiosidade pelo que viria no dia seguinte. A teatralidade de meu pai era algo marcante e isso reforça o valor que essa história tem para todos nós, como símbolo da saudade que nos açoita. Ao final, deixo uns versos tolos que tentam mostrar isso.(Prof. Ernane)

A HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO
Quando Deus andava pelo mundo, houve um soldado chamado João, que serviu ao rei oito anos, como ordenava a lei e, como não tivesse outros meios de vida, tornou a servir o rei mais oito anos e depois mais oito ainda, até que se fartou da vida militar e pediu a sua baixa. 
Deixou então o regimento ao fim de vinte e quatro anos de serviço ao rei, recebendo como pagamento apenas um pão e seis dinheiros, que lhe deram quando saiu do quartel. Mas, mesmo tendo deixado o serviço militar, o apelido revelava o que ele tinha sido na maior parte de sua vida: João Soldado.
 Assim, foi embora para sua cidade, pensando: 
“Está bem! Servi ao rei vinte e quatro anos para ganhar um pão e seis dinheiros. Quanto tempo perdido!... Mas há de ser o que Deus quiser, que eu tenho muita esperança que assim será melhor.”
 E foi caminhando tranquilo pela estrada que levava à sua cidade. Tinha andado um pedaço de caminho, quando encontrou dois mendigos que lhe pediram esmola. Na verdade, os homens eram Nosso Senhor e São Pedro. João muito admirado com o pedido, já que tinha tão pouco, respondeu:
 — Que lhes posso eu dar, eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, que é tudo o que levo comigo?
 Um dos mendigos, que era São Pedro, porém, não se contentou com a resposta, dizendo que qualquer coisa que João tivesse seria mais do que os dois mendigos tinham. João Soldado, que tinha um grande coração, abriu então o seu embornal1 surrado, tirou o pão e partiu-o em três partes iguais e deu duas aos pobres viajantes. Foi andando e, ao fim de uma légua de caminho, encontrou outra vez os mesmos mendigos, que tornaram a pedir-lhe esmola. João, desconfiado, disse-lhes:
 — Uai, parece que já dei esmola pra vocês lá atrás, mas, na dúvida, lá vai o resto que tenho, eu que eu servi o rei vinte e quatro anos e só ganhei um pão e seis dinheiros... 
Dizendo isso, resignado, repartiu com São Pedro e Nosso Senhor o pedaço de pão que levava. Continuou seu caminho e mais adiante tornaram a aparecer-lhe os dois mendigos, que lhe pediram de novo esmola.
 — Vocês outra vez! Se não são os mesmos que eu encontrei há pouco, São muito parecidos... 
Mas não importa, porque eu não nego o que tenho aos que precisam mais que eu, segundo os ensinamentos de Nosso Senhor. Apesar de ter servido o rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, vou dar-lhes o que me resta. Deu então aos mendigos tudo o que lhe restava no embornal. João Soldado então perguntou aos mendigos se não sabiam onde poderia encontrar trabalho, para que pudesse conseguir algum dinheiro para se manter até chegar à sua cidade.
 Então, um dos mendigos, que era São Pedro, revelou-se para João Soldado, dizendo quem eles realmente eram. E Nosso Senhor disse ao João Soldado que, por sua generosidade, ele podia pedir o que quisesse. João Soldado ficou muito surpreso e, ao mesmo tempo, lisonjeado por estar na presença de São Pedro e de Nosso Senhor, dizendo que simplesmente fez o que o seu coração mandou.
 Depois de pensar um instante no que iria pedir, mostrou a Nosso Senhor o embornal surrado que levava, dizendo:
 — Embora não mereça nenhuma coisa, pois já sou muito feliz por ter tido a graça de estar na presença de Nosso Senhor e de São Pedro, peço para que este embornal tenha o poder de que tudo que eu quiser vá dentro dele assim que eu ordenar. 
Embora achando estranho o pedido do João Soldado, Nosso Senhor concedeu-lhe o pedido. Ofereceu-lhe também um baralho com o qual ganharia sempre. 
Em seguida, abençoou o João Soldado, desaparecendo juntamente com São Pedro. João Soldado, após se recuperar da surpresa, voltou à sua caminhada.
 Ainda não tinha andado muito, quando, ao entrar na rua de uma cidade, viu na vitrine de uma padaria um apetitoso e cheiroso pão que parecia ter saído do forno naquela hora. João Soldado ouviu seu estômago roncar e lambeu os lábios ao ver aquela delícia, mas não tinha dinheiro para comprar o pão. Então, logo se lembrou do poder do seu embornal. Assim, disse para o pão:
 — Pula para dentro do embornal! — como num passe de mágica, o pão desapareceu da vitrine e apareceu dentro do embornal do João Soldado. O padeiro não percebeu nada e assustou-se quando viu que o pão que estava na vitrine tinha desaparecido. Era quase noite e João Soldado estava cansado de andar todo o dia. Foi então procurar um lugar para dormir, mas só encontrou naquela cidade uma casa que estava desabitada há muito tempo e que ninguém sequer passava perto, porque a casa era mal-assombrada. Dizia-se que era o fantasma do dono que tinha lá morrido, um homem muito malvado e pão-duro. João Soldado gostou daquela história de casa mal-assombrada, porque era muito corajoso.
 — Sou um soldado que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada. Vou para essa casa e quero conhecer esse fantasma.
 E foi dormir na casa, ficando muito contente com o que lá encontrou: uma despensa cheia de excelente comida e bebidas finas, além de móveis luxuosos na sala e um quarto com uma cama muito confortável.
 — Que mais quero eu? — dizia o João 
— Eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, tenho agora aqui, à minha disposição, comida, bebida e uma cama confortável. E tratou de encher a barriga. Não tinha passado muito tempo que o soldado estava comendo, quando ouviu uma voz pavorosa gritar do alto da chaminé:
 — Eu caio!!!... 
— Pois pode cair à vontade! Um soldado como eu que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros não tem medo de nada!... — respondeu João Soldado corajosamente, sem parar de comer nem um instante.
 Mal tinha acabado de proferir estas palavras viu cair pela chaminé uma perna de homem.
 — Olá! Quer ser enterrada? — perguntou zombeteiramente para a perna o João Soldado.
E a perna, levantando o pé indicou com o dedão que não queria ser enterrada. — Eu caio!... — disse de novo a mesma voz fantasmagórica.
 — Pode cair quantas vezes quiser! — repetiu o João Soldado — Comigo não tem medo, porque eu sou é muito macho.
 E logo viu cair outra perna. Em seguida, a voz disse novamente:
__ “Eu caio!...” - e o João Soldado sempre mandando cair, pois ele não tinha medo de nada. Assim, após cada vez que a voz dizia  “Eu caio!...”, caiu depois um tronco, logo depois um braço, em seguida o outro braço e por fim uma cabeça que completou o corpo. Então, aquele corpo horroroso completo andou para o lado do João Soldado e lhe disse com a mesma voz pavorosa: 
— Você é valente, eu reconheço!...
 — Como não poderia ser valente um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros?!... — respondeu João Soldado, muito senhor de si.
Então, o fantasma horroroso disse:
 — Se você é pobre, poderá ficar muito rico se fizer o que eu disser.
 Mais que depressa, o João Soldado respondeu:
 — Prontinho, coisa feia! Estou aqui para o que der e vier.
 — Está bem. Venha comigo.
E a alma do outro mundo, seguida do João Soldado, encaminhou-se para o porão que havia por baixo da cozinha, levantou uma grande pedra que tapava uma cova e mostrou ao João Soldado três grandes panelas cheias de dinheiro até a boca.
 — Está vendo todo este dinheiro? — disse a alma do outro mundo, encarando o soldado com os seus olhos horríveis que pareciam duas brasas. 
— Vejo sim! — disse o João Soldado. — Pois parte deste dinheiro será para você se cumprir o que eu quero.
 — Fale logo, coisa feia! — respondeu resolutamente o João Soldado.
 — Divida este dinheiro em três partes. Uma é para dar de esmolas aos pobres; outra é para mandar rezar missas por minha alma; e a terceira parte é para você, se cumprir à risca o que eu pedi. Se você fizer isso, estará salvando minha alma, que o Diabo está doido para levar.
 — Dito e feito! — confirmou o soldado — Eu que servi ao rei vinte e quatro anos, por um pão e seis dinheiros, melhor ainda posso cumprir os seus pedidos, com um pagamento tão bom. E o João foi logo tratar de dar as esmolas aos pobres, e de mandar dizer as missas. Com o dinheiro que restou e que era muito, comprou um bom sítio e nele passou a viver na fartura. O que o João Soldado não sabia é que o Diabo não estava nada satisfeito pelo fato de o João Soldado ter feito o que o fantasma tinha pedido. O Diabo jurou vingar-se do João Soldado, por ele lhe ter tirado a alma do avarento, que afinal se salvou com as esmolas e as missas. Então, o Capeta mandou um diabinho dos mais espertos que tinha no Inferno para lhe trazer para ali o João Soldado.
Certo dia, estava João Soldado sentado sob a sombra de uma goiabeira no seu sítio, muito distraído ouvindo os passarinhos cantar, tomando um delicioso suco de manga geladinho, quando lhe apareceu um homenzinho muito estranho. O homem disse-lhe de forma bem educada:
 — Como tem passado, sr. João Soldado? Tudo bem com o sr.?
 — Você acabou de chegar e já sabe o meu nome. Eu nunca vi você antes, como me conhece? — respondeu João Soldado, meio desconfiado daquele homenzinho feio.
 — Sou um homem educado, por isso lhe convido a tomar um pouco de suco de manga. O diabinho, muito esperto, aceitou a bebida e começou a puxar conversa com o João Soldado, chamando-o para disputar uma partida de baralho. O João Soldado não era bobo e logo desconfiou de alguma treta. Entretanto, concordou com a proposta, pois se lembrou do baralho mágico que tinha ganhado. Além disso, o João Soldado logo desconfiou que aquele homenzinho era um enviado do inferno, pois começou a sentir um cheiro de enxofre horrível. Então, foi logo falando ao diabinho disfarçado:
— Muito bem, vamos jogar! Mas o que vamos apostar, seu diabinho feioso?
O diabinho ficou surpreso. Viu que o João Soldado era mesmo muito esperto e tinha descoberto o seu disfarce. Mas foi logo dizendo:
 — Se você perder, eu levo sua alma para o inferno.
— E se eu ganhar, vou lhe dar uma surra que você nunca mais vai me incomodar! — disse o João Soldado.
— Olhe que eu servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada, muito menos de um diabo como você com essa carinha feia. O diabinho saracoteou-se muito contente, pois para ele isso era um elogio. Disse então para o João Soldado que ele era um capeta poderoso, enviado pelo próprio Lúcifer, e tinha vindo levá-lo para o inferno e nada poderia evitar isso. Então, João Soldado preparou o embornal e jogou as cartas do seu baralho mágico. O diabinho estava cada vez mais contente, achando que seria muito fácil resolver aquele problema do seu chefe, porque poderia trapacear no jogo com facilidade. Mas o baralho era mesmo abençoado e o diabinho não ganhou sequer uma partida. Ao final do jogo, ainda tentou escapulir, mas o João Soldado pegou o embornal e logo disse, dirigindo-se ao diabinho que tentava fugir:
— Diabinho, pula para dentro deste embornal. O diabinho rabeou, rogou pragas com palavrões horríveis e soltou um cheiro mais horrível ainda de enxofre e, antes que entrasse para dentro do embornal, prometeu grandes riquezas e honrarias ao João Soldado se o deixasse ir embora. Mas nada adiantou e xingando e esperneando, lá foi para dentro do embornal do João Soldado. Assim que o João Soldado prendeu o diabinho dentro do embornal, começou a bater nele com um pedaço de pau bem grosso, que moeu os ossos do diabinho e o reduziu a um pó tão fino como talco, de modo que o diabinho pôde sair escapando por um buraquinho do embornal e fugiu para o inferno apavorado. O Diabão já o esperava furioso, pois tinha visto tudo do inferno e esbravejou infernalmente contra o diabinho, por se ter deixado enganar como um bobo pelo atrevido João Soldado que assim zombava do seu poder.
— Quem vai agora buscar esse João Soldado sou eu mesmo! — disse, muito furioso Lúcifer para o diabinho, que estava todo encolhido num canto do inferno, todo dolorido e chorando que dava dó ver. Naquele momento, o João Soldado estava jantando muito satisfeito, quando ouviu uma batida na porta tão forte que fez estremecer toda a casa.
— Deve ser o Diabão! — pensou João Soldado.
 — Já estava aqui esperando que esse coisa-ruim viesse, depois da peça que preguei ao seu camarada.
E assim era. O Diabão entrou de uma vez e nem esperou o João Soldado abrir a porta, derrubando-a com um chute. Os olhos faiscavam raiva e quando falou, parecia que se abria a boca de um vulcão, vomitando lavas de fogo e enxofre.
 — Você vai pagar por tudo que fez ao meu diabinho! — rugiu o Diabo, infernalmente.
 — Se você vem para cá com essa falta de educação, achando que pode tudo, vai pelo mesmo caminho do seu diabinho! — disse-lhe João Soldado, pondo o embornal já no jeito.
 — Isso é que havemos de ver, miserável humano. Desta vez vou levar você para as profundezas, como o maior patife deste mundo. E vou lhe deixar queimando no fogo do inferno.
 — Olhe que eu não tenho medo, seu Diabão feioso. Servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e nada me apavora, pois tenho ajuda de quem pode mais, que é Nosso Senhor.
 O Diabão ficou ainda mais furioso e rancoroso quando o João Soldado falou de Nosso Senhor e já ia fincar suas unhas no João Soldado, quando ele, dando um pulo para trás, abriu o embornal em frente do Diabão e gritou:
 — Já para dentro do embornal, coisa-ruim!
Ouviu se um grande rugido medonho que o Diabo soltou dentro do embornal e, preso dentro do embornal, debatendo-se furiosamente, dava pulos até ao telhado, enquanto o João Soldado, armado de um pedaço de ferro bem pesado, dava cacetadas sem dó no Diabão até moê-lo inteirinho. E o Diabão gritava dentro do embornal, pedindo humildemente por todos os Diabos que o João Soldado o deixasse ir de volta para o inferno. Então o João Soldado disse:
 — Ah, já está pedindo misericórdia! Pois então vá para o inferno!
E o João Soldado abriu a boca do embornal, donde saiu o Diabão todo moído e quebrado, com o rabo pendurado e os chifres entortados, mal se podendo arrastar. Quando o Diabão chegou ao Inferno, estava em tal estado que os diabinhos ficaram morrendo de medo do que ia acontecer. Lúcifer então ordenou que forjassem enormes portões de aço e fabricassem fechaduras bem fortes para trancar as portas do inferno, com medo que o João Soldado lá entrasse atrás dele.Passado algum tempo, João Soldado se casou com bondosa e linda mulher. Eles tiveram muitos filhos e isso lhe trouxe um grande problema: naquela região onde moravam era difícil conseguir um compadre. Todos os vizinhos já eram seus compadres e alguns já tinham até repetido. Quando nasceu seu último filho, ele avisou à mulher que ia ser muito difícil conseguir um padrinho para a criança. Um dia, indo pela estrada, ele viu uma figura estranha, a quem o João Soldado chamou e lhe perguntou se queria batizar seu filho. Na verdade, era a Morte, que ficou muito lisonjeada e lhe disse que, embora não gostasse de Igreja, iria até lá para batizar seu filho. Apesar dos protestos da mulher, João Soldado levou o filho para a “comadre” Morte batizar.Um dia depois, andando pela estrada, a Morte foi ao seu encontro e lhe propôs um trato. Ele se tornaria um curandeiro. Quando chegasse a uma casa e encontrasse a Morte sentada na cabeceira da cama, podia desenganar o doente que esse era dela. Mas, caso a Morte estivesse sentada nos pés da cama, ele podia receitar chás de ervas ou o que quisesse que o doente se curaria. Trato feito, João Soldado começou a curar. Até que, um belo dia, João Soldado foi chamado à casa de um fazendeiro ricaço. Havia muitos médicos famosos lá, tentando curar o homem. Apesar de os médicos não acreditarem nele, de acharem que aquilo era bobagem, os filhos do fazendeiro haviam resolvido recorrer ao João Soldado. Ao entrar no quarto do doente, João Soldado viu a comadre sentada na cabeceira da cama com uma cara sisuda e logo pensou em como resolver aquela situação. Assim, pediu às pessoas da família que mandassem fazer um “sistema de uma gangorra”. João Soldado instalou aquilo no meio do quarto, pôs o doente em cima e rodou várias vezes. A comadre Morte correu atrás, mas perdeu o doente. João Soldado o curou e ainda ganhou um bom dinheiro da família do fazendeiro. Um outro dia, andando pela estrada, João Soldado encontrou-se com a Morte, que estava furiosa e pretendia levá-lo. João desculpou-se, dizendo que tinha feito aquilo porque os médicos estavam duvidando dele. Mas, para a Morte, não havia justificativa que valesse. Sendo assim, João lhe disse que não queria morrer em pé e, tirando o embornal, gritou:
 — Pula para dentro do embornal, Comadre! Assim, João Soldado prendeu a Morte. Dependurou o embornal num cômodo do seu sítio, num gancho bem alto e deixou a Morte lá. A partir daí, ninguém morria mais. Inclusive João Soldado e sua mulher, que foram ficando bem velhinhos!


 Um belo dia, passando por uma aldeia, uma mulher muito velha acusou-o de ser o culpado por aquela situação. Ela já estava cansada de viver e queria ir para o céu. João Soldado achou que já estava na hora de soltar a Morte, mesmo que ela o levasse. Só que a comadre Morte tinha medo dele e não queria levar o João Soldado com ela... Nem chegava perto dele, com medo de ele prendê-la no embornal novamente. João Soldado foi ficando muito velho e já queria ir embora. Resolveu então procurar sozinho a porta do céu ou a do inferno. A comadre Morte deu-lhe umas dicas, de longe. A primeira porta que João Soldado encontrou foi a porta do inferno. Mas o capeta não quis deixar João entrar, pois o chefão Lúcifer tinha avisado para tomar muito cuidado com o João Soldado, que ele era muito perigoso. Logo então, João Soldado pôs-se a caminho do Céu. Chegando às portas do Paraíso, bateu e São Pedro perguntou de dentro:
— Quem é?
— Sou eu, o João Soldado, que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros. São Pedro parecia ter se esquecido do João Soldado que o ajudara e a Nosso Senhor, quando, disfarçados de mendigos, pediram-lhe ajuda. O porteiro do céu disse então ao João Soldado:
 — Só por ter servido ao rei vinte e quatro anos, você não pode entrar aqui no Paraíso. O mais importante é quanto serviu a Nosso Senhor!
 — Respondeu São Pedro, entreabrindo a porta da guarita onde ficava para poder olhar direito o João Soldado. Este, por sua vez, ficou um pouco bravo e falou:
 — Por que isso agora, seu São Pedro? Por que um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e serviu a Nosso Senhor a vida toda não pode entrar no Paraíso? São Pedro reconheceu os argumentos, mas achou o João Soldado muito atrevido e resolveu teimar um pouco e não deixá-lo entrar tão facilmente. Só que o João Soldado era mais teimoso ainda e realmente muito atrevido e, sem respeitar ao as barbas brancas de São Pedro e sua venerável careca, disse a São Pedro que, se ele não o deixasse entrar, iria colocá-lo dentro do embornal. São Pedro então se lembrou do soldado que o tinha ajudado quando estava com Nosso Senhor disfarçados de mendigos e disse-lhe:
 — Olhe, que foi por meu pedido que Nosso Senhor lhe deu esse embornal, e você não deve jamais usá-lo contra mim!
— Eu não penso assim! Depende da situação e agora é uma oportunidade ótima. Ou me deixa entrar, ou vai para dentro do embornal — ameaçou o João Soldado. E como São Pedro já ia fechar a porta da guarita, sem lhe dar tempo, João Soldado gritou:
 — Para dentro do embornal.
São Pedro na mesma hora ficou preso dentro do embornal e o João Soldado entrou no Paraíso. Em seguida, São Pedro gritou:
 — Tire-me daqui, que eu lhe deixo ficar aí no céu. Tire-me daqui, antes que alguma alma ruim entre no Paraíso e Nosso Senhor venha me chamar a atenção.
E assim, o João Soldado entrou no céu, ele que serviu ao rei vinte quatro anos por um pão e seis dinheiros. E que serviu a Nosso Senhor por toda a vida.
1) embornal= capanga, sacola. ( Prof. Ernane)

O SOLDADO
Por anos de tradição constrói-se um caráter 
uma história que ficou na memória
 pedaços de um tempo de carinho à beira de um fogão a lenha.


Por anos de tradição constrói-se um caráter
 uma lembrança que ficou na história 
recortes de um tempo de menino
 com medo de que algum monstro venha à noite
 cair pedaço por pedaço à sua frente
 e ele não tem a coragem do João Soldado
 e ele não tem um embornal abençoado
na verdade assim se faz a vida da gente 
com pedaços de carinhos que acumulamos 
com histórias de vidas que aos pouquinhos economizamos
 dentro do nosso coração
 todas aquelas pessoas que nós amamos
 todos aqueles amedrontados menininhos 
que se lembram daquele soldado João
 que com sua esperteza enganou até a morte
 e enfrentou os demônios com coragem e sorte
 mas nunca deixou de ter uma boa intenção
 e de louvar a Nosso Senhor com devoção
 foi ajudando aos outros que se deu bem
 e acabou indo parar no Paraíso
 e para isso passou por poucas e boas na vida...


Por anos de tradição constrói-se um caráter
 uma história que ficou na lembrança
 pedaços da vida de uma criança
 que cresceu mas continua menino.
Prof. Ernane Duarte Nunes
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